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Depeche Mode Mantém-se Fiel ao Estilo, Sem Soar Saudosista

Novo álbum, "Delta Machine", encerra a trilogia de discos produzidos pelo britânico Ben Hillier.

Em tempos de discos "vazados" antes do lançamento, streaming integral de álbuns inéditos e canções liberadas para download do que ainda está por vir, tem se prestado cada vez menos atenção aos videoclipes. Por 20 anos, este foi um produto obrigatório de todo trabalho pop de sucesso. Quem ainda dedica algum tempo a essas produções pode ter uma boa surpresa. Claro, o desafio é doloroso, já que é necessário garimpar bastante em meio aos vídeos de divas do R&B e do pop, rappers desbocados e galãs adolescentes, todos empenhados numa repetição exaustiva de clichês, que matematicamente tende ao infinito.
Um vídeo como "Heaven" está lá para salvar seu dia. Peça promocional do primeiro single do novo álbum "Delta Machine", do Depeche Mode, o clipe foi dirigido por Timothy Saccenti, jovem estrela do mercado fotográfico e audiovisual, com experiência em publicidade e vídeos para artistas. Saccenti registra uma performance do trio inglês numa velha igreja de Nova Orleans (EUA), alternando as imagens da banda com sequências de uma árvore mística e personagens que parecem saídos de uma fusão de ficção científica e fantasia religiosa. Claro, não é uma imagem nova - lembre de "The Sun Always Shines on TV", do trio norueguês a-ha, para ficar em um terreno esteticamente semelhante ao do Depeche Mode.
O que faz de "Heaven" algo a merecer sua atenção é a perfeita sincronia da imagem com a canção. "Heaven" é uma canção belíssima. Daquelas que fazem você repetir uma, duas, três vezes, antes de passar para a faixa seguinte no CD ou no player de MP3. É grudenta, apesar de sua lentidão melancólica e de não ter um daqueles refrões fáceis de sair cantarolando. Os versos evocam imagens religiosas, de gozo e transcendência mística, sem transmitir alegria. Antes, emula uma tristeza crônica. Como no vídeo de Saccenti.

"Heaven" é uma balada que nos ajuda a lembrar da importância do Depeche Mode para a música pop. O grupo surgiu em 1980, integrando a leva de bandas de pós-punk que aderiram à música futurista, com teclados e sintetizadores em primeiro plano. Os roqueiros mais puristas torceram o nariz, atacando o synthpop em benefício de uma música mais "orgânica".

De fato, não faltavam picaretas apertando botões e fazendo música pop de baixa qualidade, mas com apelo popular. Contudo, Depeche Mode, New Order, dentre os poucos integrantes de um seleto grupo, provaram que era possível fazer boas canções, orgânicas, com toda aquela parafernália eletrônica; e que não era preciso tirar o sentimentos das músicas, nem sacrificar o apelo pop desta produção.

"Delta Machine" foi produzido com o mesmo conceito que ajudou o Depeche Mode a criar pérolas como "Enjoy the Silence", "Personal Jesus" e "Strange Love". O disco é uma prova de que o Depeche Mode ainda representa a nata do pop de linhagem eletrônica. É capaz de manter sua identidade ("esse é um disco do DM") sem soar como uma peça saudosista ("voltaram aos bons tempos desse ou daquele álbum clássico").
O disco funciona bem do início ao fim. Da marcha minimalista "Welcome to my World" à dançante "Soothe my soul", passando pelas baladas "Heaven" e "Slow", e o indie rock "Broken". Não é difícil, no entanto, que o conceito do álbum incomode um pouco algumas pessoas. A ideia de Dave Gahan (vocais), Martin Gore (guitarras e teclados) e Andy Fletcher (teclados) era soar melancólicos e sombrios. Fazem isso direitinho, mas não deixam muito espaço para canções dançantes. Absorvido pela beleza de faixas como "Slow", é até difícil reparar nesse defeito.

Crédito: Diário do Nordeste

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