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Resenha: Delta Machine, do Depeche Mode


Thiago Sales é um apaixonado por sintetizadores, conversas profundas e música em geral. À frente da banda de um homem só Yanna Lee, criou refrões grudentos e batidas incrivelmente estranhas e familiares. Em sua primeira colaboraçāo no Play, ele escreve sobre o novo disco do Depeche Mode. 

O testamento de uma amizade Melville dizia que entre amigos o sujeito pode ficar calado a contemplar o silêncio das coisas. Gahan e Gore parecem amigos desse tipo. Em grande parte, a beleza do Depeche Mode incide nos descompassos e reencontros dessa amizade que atravessa décadas. Gahan é a pessoa que pode dizer a Gore: “There’s too much confusion, I can’t get no relief”. Gore acha a voz de Gahan linda. Gahan vê em Gore sua voz interior traduzida em versos e melodias. Hoje em dia, passado tantos álbuns, ninguém sabe mais quem é Gore e quem é Gahan porque ambos estão em simbiose profunda. E o Delta Machine? É isso também?

Há duas hipóteses aqui: ou o Depeche Mode tá rindo de nossa cara, ou, ao contrário, está brincando de ser genial. Qualquer uma das duas hipóteses sugere as mesmas conclusões: Martin Gore já está tão à vontade no ofício de compositor que pode sambar pelos sintetizadores de maneira abusada e tranquila. Gore deixou a música encarnar no seu corpo a tal ponto que já nem sabe mais se é música ou se é gente. Ou melhor, se ele é Dave Gahan, se Dave Gahan é ele, se os sintetizadores são ele, se ele é o produtor convidado, se ele é a verdade sobre a música eletrônica, ou se ele é, enfim, apenas um “blues man” perdido numa indústria desativada nos subúrbios de Berlim que acabou de encontrar um “moog estiloso” – um moog de plástico. A guitarra de Martin Gore é feita de teclado. O teclado de Gore é feito de guitarra. Quando ele desce os dedos nas teclas ele pensa numa guitarra. Quando ele dedilha a guitarra ele pensa num teclado.

Seja como for, Delta Machine é uma brincadeira. Aquela coisa que a gente não pode falar mal, porque isso desvela a incapacidade do ouvinte de entender a piada, e nem pode falar bem, porque acusa o ouvinte de carecer de senso crítico – é uma charada bem mais acertada que o irmão Exciter. Delta Machine é tão engraçado que inicia o disco a convidar o sujeito que já se sente convidado “Welcome to My World” – cantarola o Sir. Gahan. O ouvinte desse álbum é como um poeta que entra numa casa de ópio: ora, todo mundo que vai numa casa de ópio sabe o que tem numa casa de ópio, ou seja, ópio. E mesmo assim, o viciado vai lá ouvir. Mas, quando entra naquele troço… Tudo é mágica. Tudo vira “fumaça”.

Aos poucos o sujeito está mesmo no céu – como sugere a terceira faixa. E Gore, que agora é Gahan, sabe que o ouvinte é um amigo: “I dissolve in trust”. A coisa é tão segura, que ele dá “bye bye” na última faixa e “welcome” na primeira. Claro, isso poderia ser pueril, mas trata-se de velhos conhecidos seus, seus amigos de outrora, sujeitos que te acompanharam na mudança de valores – lembram como foi difícil aquela transição de 80 para 90? E depois? Lembram-se daquela patifaria de guitarrices e electros por todo lado? E hoje? E o mundo hoje? Você está seguro nesse mundo de hoje? Não, né? Então ouça o Delta Machine.

Delta Machine é um testamento de amizade. Se o fã chegou até ali, mergulhado no universo da dupla mais irreverente de todos os tempos, G&G, Gore and Gahan, terá paciência para vacilos, cansaços, asneiras, divagações, declarações piegas de amor, timbres exagerados, riffs manjados, melodias previsíveis e, enfim, um belíssimo álbum para dar mais Depeche Mode para quem gosta de Depeche Mode. Fã de Depeche Mode, ouça Depeche Mode.

Fonte: Sergio Augusto

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